Sunday, October 22, 2006

Sapo, inovação, software livre, tag like titles :-)

Eu disse que a resposta a este post do Karlus merecia um post mais a sério. Hoje é domingo, chuva, a televisão é 57 channels (and nothin’on), por isso pressinto mais um lençol-post…

O post do Karlus vale pelos comentários. Gerou-se alguma discussão por causa da inovação nos serviços Sapo, pelo facto de o Sapo anunciar, de forma mais ou menos veemente, que são uma empresa inovadora, enquanto ao mesmo tempo usam alegremente software livre para construirem os seus serviços. Há várias observações interessantes a retirar da discussão.

A primeira, que me agrada muito, é que a web é um mercado onde o software livre reina. Pouca gente neste momento pensa em usar software proprietário para fazer desenvolvimento na web. Percebe-se que uma startup ou uma empresa pequena evite software proprietário. O orçamento de licenças (e o de suporte!) pesa o suficiente para afundar o barco. No entanto, quando mesmo uma empresa com bolsos gigantes como a PT recorre primariamente a software livre, o caso de estudo é claro: Há mais variedade, mais qualidade e mais know-how em software livre nesta área.

Depois, é interessante observar a animosidade geral contra a PT, e ainda mais o reverso da medalha: a des-sensibilização dos colaboradores da PT contra essa agressividade geral. Quase como se fosse um facto adquirido que uma empresa gigante e monopolista atraia raios e coriscos de todo o lado (vide o caso Microsoft).

Quanto à utilização de software livre pela PT no Sapo, acho perfeitamente normal. Aliás, é a única hipótese de se conseguir ter este tipo de serviços a custos próximos do zero. É muito bonito pensar que na web tudo é de graça (grátis, de borla), mas não é. É muito barato, e é muito barato porque há poupanças grandes em pessoal, que é o principal custo dos serviços hoje em dia. Com custos baixos pode-se com alguma facilidade conseguir ter lucro nestes negócios. Qualquer pessoa que ache que as empresas neste meio não querem fazer dinheiro, que se desengane. Isso acabou em 2000/2001. Cash is king!

A pergunta seguinte, quando uma empresa usa software livre, é se se integra no ecossistema. O software livre vive em grande parte da multiplicação de pequenas contribuições de quem usa aquilo. Mesmo se não é suposto pagar-se em dinheiro, é suposto pagar-se em patches, que inevitavelmente surgem quando se usa um pedaço de software. Confesso que não sei a resposta à pergunta. O Sapo lançou um blog Software Livre no Sapo. Esperava que trouxesse como conteúdo o uso de software livre no sapo, mas o conteúdo é mais uma descrição das actividades do pessoal do Sapo que gosta/usa/admira software livre. É, no entanto, natural que o Sapo contribua de volta. A contribuição no dimp é conhecida. Provavelmente falham, como nós, na divulgação do que fazem. Claro que a posição monopolista agrava esta falha.

Depois, se são inovadores ou não. Claro que não, a começar no modelo de negócio. O Sapo é a AOL portuguesa. Construiu um recreio onde as pessoas que não conhecem a internet podem brincar sem medo de se magoar. Por iniciativa da PT, para o cidadão comum, a internet é o Sapo.

Deviam ser inovadores? Não, claro que não. Por um lado, a estratégia actual funciona. Dá dinheiro, muito dinheiro. E tem um decaimento relativamente lento, até bastante previsível por observação da evolução da AOL. Vale a pena cavalgar a onda do monopolismo enquanto se pode. Não esquecer, o objectivo é $$$.

Ainda por cima, historicamente na web a inovação não vem das empresas grandes. O Google tenta desesperadamente inverter essa tendência, mas apesar de tudo comprou o Youtube. Empresa pequena capaz de mudar a internet. E não foi por acaso que o Youtube não foi criado dentro do Paypal (onde trabalhavam os três fundadores).

A verdade é que as empresas grandes não remuneram a inovação nem perto daquilo que ela vale. Imaginem o Paypal a pagar 400 milhões de dólares de prémios aos três fundadores Chad Hurley, Steve Chen, e Jawed Karim. Ha!

Seria idiota para a PT estar a correr atrás da inovação, quando a estatística diz que iriam falhar.

Então, o Sapo está condenado a ter sempre má imagem dentro da comunidade geek? Será sempre o mauzão? Não necessariamente. Basta por os olhos na IBM. A IBM conseguiu dar a volta da imagem de mal encarnado para o amiguinho do software livre. Bastou um esforço grande de abertura, muitas relações públicas, e o à vontade para ceder um pouco de uma parte do negócio, ganhando em estabilidade na globalidade das fontes de receitas.

Verdade seja dita, a IBM fez isto quando se estampou durante a sua fase monopolista, e é preciso um choque desse género para pôr elefantes a dançar.

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Wednesday, October 18, 2006

3º Encontro de Weblogs

Ainda não escrevi sobre a minha participação no 3º Encontro de Weblogs. Ando sempre a correr, mas este evento mais do que merece ficar blogado para a posteridade.

Fui convidado para o painel de empresas prestadoras de serviços, juntamente com a Maria João Nogueira, que lidera o projecto de blogs do [portal] Sapo, e João Coutinho do Aeiou. Também estava prevista a presença da Weblogs SL, que infelizmente não foi possível. Um agradecimento ao Sérgio Nunes pelo convite, e desde já parabéns pela organização do painel.

Antes de mais, despachar os dois pontos negativos: O primeiro é que estava com vontade de ouvir o pessoal da Weblogs SL, porque têm um modelo de negócio extremamente interessante, que não existe em Portugal. Fazem nanopublishing que é uma palavra cara para dizer que fazem o papel de editores no mundo dos weblogs. Com isso conseguem juntar autores de grande nível, e obter a notoriedade, a marca de qualidade e a recompensa financeira que o acrescento de valor lhes merece. O valor acrescentado deles, ao contrário do nosso, não é tecnológico, é social, e só por isso são para mim mais misteriosos e mais interessantes. Por serem completamente diferentes do resto das empresas que estavam no painel, dariam concerteza um contributo importante.

Depois, sem desvalorizar o João Coutinho, acho uma pena que o Paulo Querido não esteja envolvido no processo de transição do weblog.com.pt. Estar envolvido, no caso dele, implicaria estar presente nestas acções públicas. Muito claramente, quem conhece melhor a plataforma ainda é o Paulo Querido.

Quanto ao painel em si, gostei muito. Gostei, por conhecer as pessoas do meio. Deu para perceber as motivações de cada um. O Aeiou está ainda a passar as dificuldades de escala inerentes a um serviço desta dimensão. Não é trivial debitar 5Mbps de cada servidor com conteúdo dinâmico, e já todos passámos pela experiência (na Portugalmail, felizmente, antes de começar o projecto do blog.com, o que permitiu evitar o erro). Na intervenção da Maria João Nogueira, confesso que o ponto mais relevante e que mais me surpreendeu foi a declaração de que o serviço de blogs não tem uma vocação lucrativa.

É profundamente estranho que uma empresa, ou um departamento de uma empresa não sinta a necessidade de ser lucrativo. Eu compreendo que os blogs do Sapo são provavelmente lucrativos, mesmo que em funny money (i.e. eixos não tangíveis). O Sapo assume uma postura de walled garden, semelhante ao que a AOL fez nos anos 90. Devo dizer, pelo que vejo da generalidade da população em Portugal, que a estratégia até funciona. Para muitos, a internet é o portal Sapo. Nessa óptica, faz sentido ir cobrindo todos os serviços que surgem na net dentro do jardim fechado. Os utilizadores eventualmente darão dinheiro verdadeiro com serviços como o ADSL, ou publicidade, ou outra coisa qualquer.

O que me faz confusão, é que mesmo o funny money costuma contar-se em euros. Nada é completamente intangível (excepções para o amor e a felicidade, pronto…), e se um utilizador de blogs tem uma determinada probabilidade de se converter em pagante de outro serviço qualquer, então o blogs.sapo.pt é uma ferramenta de marketing, e pode ser colocado como custo de marketing. Este tipo de contabilidade interna permitiria justificar a despesa, e até quem sabe aumentar a equipa. E sem dúvida que me choca que não se faça contabilidade interna numa empresa como a PT. Como será na era Belmiro?

Ainda houve alguma discussão sobre se os prestadores de serviço deviam censurar blogs de cariz sexual, erótico ou mesmo pornográfico. A questão é delicada porque este foi um problema que afectou a primeira versão dos blogs do Sapo. Não sei se a colocação da questão foi inocente ou não. De qualquer forma a questão para mim é perfeitamente clara: Não cabe ao prestador de serviço o papel de guardião moral. Obviamente é necessário actuar dentro da legalidade, mas no campo da moralidade a melhor posição é dar à comunidade os meios para fazer um papel de edição básica, sem nunca restringir o direito à publicação. Posso acrescentar agora que os blogs de cariz sexual rendem consideravelmente menos em publicidade e em serviços premium, pelo que não nos são muito atractivos. De qualquer forma, não dão prejuízo pelo que nem sequer existe motivação económica para os silenciar.

Só hoje vi os comentários ao post do Karlus sobre a sessão. A resposta vale um post, mas vai ficar para mais tarde, porque este já vai num lençol-post.

Posted by K in 16:38:12 | Permalink | No Comments »